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PENSAMENTO DE ERNESTO MELO ANTUNES
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documentos relevantes |
Lugar |
Data |
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Documento dos Nove
(Documento Melo Antunes) |
Lisboa |
07/08/1975 |
Publicado
no Jornal Novo a 7 de Agosto de 1975. Elaborado maioritariamente por
Melo Antunes é subscrito por Vasco Lourenço, Sousa e Castro, Vítor
Alves, Pezarat Correia, Franco Charais, Canto e Castro, Costa Neves e
Vítor Crespo.
Arquivo Ernesto Melo Antunes
1. Os
recentes desenvolvimentos da situação em Portugal, incluindo o que tem
vindo a processar-se no interior das Forças Armadas, decidiram um grupo
de oficiais a tomar uma posição crítica relativamente aos acontecimentos
mais em foco no desenrolar dos diversos episódios que têm pautado a
conturbada vida política dos portugueses nas últimas semanas.
Parece a
esses oficiais que se chegou a um ponto crucial do processo
revolucionário iniciado em 25 de Abril de 1974 e que é o momento das
grandes opções, tomadas com serena e inquebrantável energia, em relação
ao futuro deste país.
Parece-lhes, também, que é o momento de se clarificarem posições
políticas e ideológicas, terminando com ambiguidades que foram semeadas
e progressivamente alimentadas por todos aqueles que, dentro e fora das
Forças Armadas, estavam interessados no descrédito de uns tantos para
melhor poderem fazer valer e impor as suas próprias ideias.
Recusam, à
partida, os oficiais que por esta forma se manifestam, o epíteto de
«divisionistas» com que têm tentado denegri-los, tendo-se chegado ao
escandaloso despudor de se sugerir a sua expulsão das F. A. Eles não
abdicam do seu direito de crítica, direito esse que, num tão grave
momento da vida nacional, assume o carácter de dever patriótico.
2. O
Movimento das Forcas Armadas nasceu do espírito e do coração de um
punhado de oficiais democratas, patriotas e antifascistas que decidiram
pôr termo a uma longa noite fascista e iniciar com todo o povo
português, uma nova caminhada de paz, progresso e democracia, na base de
um Programa Político universalmente aceite e respeitado. Sabe-se como as
grandes movimentações das massas populares abriram novas perspectivas à
revolução democrática iniciada em 25 de Abril de 1974 e como, a partir
sobretudo das eleições gerais para a Assembleia Nacional Constituinte, a
via para o socialismo passou a ter carácter irreversível.
O «Programa
do Movimento das Forças Armadas» era o elemento teórico da revolução
democrática mas continha já o essencial das propostas políticas que
apontavam para um dado modelo de socialismo. Em virtude disso, o
pensamento de esquerda subjacente à elaboração do «Programa» não foi em
nada ferido pelos chamados «avanços do processo revolucionário», onde e
quando esses «avanços» corresponderam efectivamente à destruição das
estruturas políticas, económicas e sociais do antigo regime e foram na
prática, substituídas por novas estruturas operativas e actuantes, base
de uma nova organização político-social de raiz socialista.
Infelizmente, porém, quase nunca se verificaram transformações deste
tipo.
Assistiu-se, sim, ao desmantelamento de meia dúzia de grandes grupos
financeiros e monopolistas; mas, paralelamente, e à medida que as
nacionalizações se sucediam (a um ritmo impossível de absorver, por
muito dinâmico que fosse o processo e por maior que fosse o grau de
adesão do povo, sem grave risco de ruptura do tecido social e cultural
pré-existente - é o que se verifica actualmente), foi-se assistindo à
desagregação muito rápida das formas de organização social e económica
que serviam de suporte a largas camadas da pequena e média burguesia,
sem que fossem criadas novas estruturas capazes de assegurarem a gestão
das unidades produtivas e dos circuitos económicos e de manterem o
mínimo indispensável de normalidade nas relações sociais entre todos os
portugueses.
Entretanto,
e paralelamente, verifica-se a progressiva decomposição das estruturas
do Estado. Formas selvagens e anarquizantes de exercício do poder
foram-se instalando um pouco por toda a parte (até no interior das F.
A.) retirando proveito dessa desordem as organizações ou formações
partidárias mais experientes e ávidas do «controle» dos vários centros
do poder. O M. F. A., que inicialmente se havia afirmado como
supra-partidário, viu-se cada vez mais enleado nas manipulações
politiqueiras de partidos e organizações de massas, acabando por se ver
comprometido com determinado projecto político que não correspondia nem
à sua vocação inicial nem ao papel que dele esperava a maioria da
população do país: o de guia e condutor dum processo de transformação
profunda da sociedade portuguesa, com um claro projecto político de
transição para o socialismo, independente dos partidos, embora sem
dispensa do seu concurso e com a mais ampla base social de apoio
possível.
3. O país
encontra-se profundamente abalado, defraudado relativamente às grandes
esperanças que viu nascer com o M. F. A. Aproxima-se o momento mais
agudo duma crise económica gravíssima, cujas consequências não deixarão
de se fazer sentir ao nível duma ruptura, já iminente, entre o M. F. A.
e a maioria do povo português. Alarga-se, dia a dia, o fosso aberto
entre um grupo social extremamente minoritário (parte do proletariado da
zona de Lisboa e parte do proletariado alentejano), portador de um certo
projecto revolucionário, e praticamente o resto do país, que reage
violentamente às mudanças que uma certa «vanguarda revolucionária»
pretende impor, sem atender à complexa realidade histórica, social e
cultural do povo português.
Finalmente,
a fase mais aguda da descolonização (Angola) chega, sem que se tenha
tomado em consideração que não era possível «descolonizar», garantindo
uma efectiva transição pacífica para uma verdadeira independência, sem
uma sólida coesão interna do poder político, e sem, sobretudo, se ter
deixado de considerar que a «descolonização» devia continuar a ser, até
se completar, o principal objectivo nacional. Vemo-nos agora a braços
com um problema em Angola que excederá provavelmente a nossa capacidade
de resposta, gerando-se um conflito de proporções nacionais que poderá,
a curto prazo, ter catastróficas e trágicas consequências para Portugal
e para Angola. O futuro duma autêntica revolução em Portugal está, em
todo o caso, comprometido, em função do curso dos acontecimentos em
Angola, à qual nos ligam responsabilidades históricas inegáveis para
além das responsabilidades sociais e humanas imediatas para com os
portugueses que lá trabalham e vivem.
4. Todo
este grave conjunto de aspectos da vida nacional têm vindo
sistematicamente a ser escamoteados e, mais do que isso, profundamente
adulterados, por larga parte dos meios de: comunicação social, através
de um rígido «controle» partidário que sobre eles se exerce -
particularmente dos nacionalizados - assistindo-se hoje ao degradante e
vergonhoso espectáculo da corrida de uma boa parte da população aos
noticiários de emissoras estrangeiras sobre o nosso país.
Como se
isto não fosse já bastante, foi-se ao cúmulo de preparar um projecto de
diploma que, ao instituir uma «comissão de análise» (e porque não
«comissão de censura»?) servirá de ferro de lança apontado aos últimos e
resistentes baluartes da Imprensa livre neste país.
5. Não se
pretende esgotar, neste documento, a crítica à acção do regime
instaurado após o 25 de Abril ou, em especial, das instituições após o
28 de Setembro de 1974. Recentemente, muitas contribuições críticas têm
vindo a público que, no essencial, esclarecem sobre as debilidades
fundamentais do actual regime.
Importa, ao
grupo de oficiais que entendeu chegado o momento de tomar posição,
definirem-se tão claramente quanto possível, perante o povo português e
relativamente às várias instâncias de poder político e, em particular ao
M.F.A. E assim, entendem deixar expresso, o seguinte:
-
Recusam-se o modelo de sociedade socialista tipo europeu oriental a que
fatalmente seremos conduzidos por uma direcção política que crê,
obstinadamente, que uma «vanguarda» assente numa base social muito
estreita fará a revolução em nome de todo o povo, e que tem, na prática,
tolerado todas as infiltrações dessa «vanguarda» nos centro de poder
político e nas estruturas militares.
O dirigismo
burocrático típico de regimes totalitários é frontalmente negado por
aqueles que lutaram no passado contra o fascismo e coerentemente se
colocam agora numa perspectiva de luta contra novas formas de
totalitarismo.
-
Recusam-se o modelo de sociedade social-democrata em vigor em muitos
países da Europa Ocidental, porque acreditam que os grandes problemas da
sociedade portuguesa não podem ser superados pela reprodução no nosso
país dos esquemas clássicos do capitalismo avançado.
Seria um
erro trágico, no momento em que tudo leva a crer que se avizinha uma
crise geral e global do capitalismo, que se tentasse, mesmo à custa de
benefícios reais imediatos mas manifestamente ilusórios, a repetição das
experiências sociais-democratas.
- Lutam por
um projecto político de esquerda, onde a construção duma sociedade
socialista - isto é, uma sociedade sem classes, onde tenha sido posto
fim à exploração do homem pelo homem - se realize aos ritmos adequados à
realidade social concreta portuguesa, por forma a que a transição se
realize gradualmente, sem convulsões e pacificamente.
Este
objecto só será atingido se, à teoria leninista da «vanguarda
revolucionária», impondo os seus dogmas políticos de forma sectária e
violenta, se opuser a estratégia alternativa da formação dum amplo e
sólido bloco social de apoio a um projecto nacional de transição para o
socialismo.
Este modelo
de socialismo é inseparável da democracia política. Deve ser construído,
pois, em pluralismo político, com os partidos capazes de aderir a este
projecto nacional. Este modelo de socialismo é inseparável, ainda, das
liberdades, direitos e garantias fundamentais. Não se nega que possam
sofrer transformação do seu conteúdo à medida do avanço do processo
histórico. No entanto, uma concepção revolucionária de socialismo, para
um país europeu como Portugal, inserido no contexto geo-político e
estratégico em que se encontra, e com o passado histórico e cultural que
é o seu, não desvincula o problema fulcral da liberdade humana do da
construção do socialismo.
- Reclamam
e lutam por uma autêntica independência nacional (tanto política como
económica) o que significa aplicação coerente duma política externa
adequada às nossas realidades históricas culturais e geo-políticas, o
que implica:
- Abertura
de relações com todos os países do mundo, na base da igualdade, respeito
mútuo e não ingerência nos assuntos internos de cada país, tendo em
conta a necessidade de independência relativamente às grandes potências:
-
Manutenção das nossas ligações com a Europa, reforçando e aprofundando
as relações com certos espaços económicos (C. E. E., E. F. T. A.);
- Franca
abertura em relação ao Terceiro Mundo (com particular relevo para as
nossas antigas colónias) e países árabes;
-
Aprofundamento das relações com os países socialistas do leste europeu;
-
Desenvolvimento duma estratégia da área do Mediterrâneo, em conjugação
com todos os países interessados, tanto europeus como árabes.
- Lutam por
recuperar a imagem primitiva do M.F.A., no sentido em que o M. F. A. só
teve aceitação universal enquanto aparelho autónomo de produção política
e ideológica.
Assim se
explica o consenso que se formou em tomo do seu programa. Considera-se
indispensável, pois, para a resolução correcta da crise gravíssima que o
país atravessa, que o M. F. A. não só se afirme suprapartidário como
desenvolva uma prática política realmente isenta de toda e qualquer
influência dos partidos. Só assim reunirá condições para recuperar a sua
credibilidade e cumprir a sua vocação histórica de árbitro respeitado e
motor do processo revolucionário.
Só assim,
também, poderá esperar que um grande bloco social de apoio, englobando
proletariado urbano e rural, pequena burguesia e largos estratos da
média burguesia (incluindo técnicos e intelectuais progressistas) possa
ainda formar-se, criando a base de sustentação indispensável à
realização prática das grandes transformações por que deve passar a
sociedade portuguesa.
- Recusam a
instituição de uma política que assente em medidas e práticas
demagógicas, qualquer que seja o seu carácter, que mais não são do que a
prova da real incapacidade de equacionar os grandes problemas da
sociedade portuguesa e de lhes encontrar soluções adequadas e justas,
termos duma política de equilíbrio e verdade, única forma legítima de
obter uma ampla mobilização das bases sociais de apoio.
- Entendem
que a tão falada questão da «crise de autoridade» reflecte a questão
mais geral do «poder político». Onde se situa o poder político? Quem é o
seu real detentor? Como faz uso dele?
Julga-se
que a questão do poder não é tanto o problema do poder ao nível das
instâncias governativas como ao nível do M.F.A. Isto é: a questão do
poder é a questão do poder no interior do M.F.A.
A
clarificação deste problema é tarefa prioritária. Sem isso não é
possível atacar a fundo o problema da organização do Estado, evitando a
sua completa ruína. As divergências surgidas no seio do M.F.A. são o
reflexo de projectos ideológicos distintos. Projectos incompatíveis
entre si, pois não é possível conciliar uma concepção totalitária de
organização da sociedade com uma concepção democrática e progressista ou
ainda com vagas concepções populistas de feição anarquizante.
É
necessário denunciar vigorosamente o espírito fascista subjacente ao
projecto que, dizendo-se socialista, acabará na prática duma ditadura
burocrática dirigida contra a massa uniforme e inerte dos cidadãos dum
país.
É
necessário repelir energicamente o anarquismo e o populismo que conduzem
inevitavelmente à catastrófica dissolução do Estado, numa fase de
desenvolvimento da sociedade em que, sem Estado, nenhum projecto
político é viável.
A resolução
da crise do poder no interior do M.F.A - e, portanto, da questão do
poder ao nível do Estado - não terá porém, saída, enquanto tratada
apenas ao nível dos diferendos ideológicos. É indispensável, na prática,
encontrar solução adequada para o problema da dispersão dos «centros de
poder». Sem o mínimo de «unidade de comando» a direcção política
revelar-se-á cada vez mais fluida, vogando perdida no mar encapelado de
decisões arbitrárias duma 5ª Divisão do E. M. G. F. A., duma Assembleia
do M.F.A., de Assembleias militares «ad-hoc» reunidas imprevista e
misteriosamente, de Gabinetes de Dinamização, do Conselho da Revolução,
do COPCON, de Sindicatos, etc. Ao Governo, nestas condições, que espaço
político de manobra lhe resta e com que autoridade actua? Nenhuns planos
poderão ser coerentemente concebidos e aplicados sem um Governo que, por
um lado, não deixe margem para dúvidas quanto à sua capacidade de
execução do projecto político global definido pelo M.F.A. e que, por
outro, seja revestido da autoridade necessária para se fazer obedecer.
6. Em cada
dia, a cada hora que passa, multiplicam-se os sinais evidentes duma
agitação social que tende perigosamente a alastrar, submergindo o país
numa onda de violência incontrolável.
Acumulam-se
factores que geram a promoção duma ampla base social de apoio ao
regresso do fascismo. E é ridículo dizer-se, como certas formações
políticas e certos órgãos de Informação, que são, «manobras da reacção».
O descontentamento, o mal-estar, a angústia, são reais e por demais
evidentes e têm a sua causa profunda em erros de direcção política
acumulados ao longo dos últimos meses e em desvios graves de orientação
no interior do próprio M. F. A.
Que fazer?
Encontramo-nos em mais uma encruzilhada da história, e é ao M. F. A.,
uma vez mais, que compete assumir o peso maior das responsabilidades
para com o povo português.
É imperioso
escolher conscientemente a via para o socialismo, sem violar a vontade
da grande maioria dos portugueses, conquistando hesitantes ou
descontentes pela persuasão e o exemplo. Terá de competir ao M.F.A., em
completa independência dos partidos políticos, mas tendo em conta o
papel que estes podem e devem representar, definir um projecto político
de transição para o socialismo.
É
necessário reconquistar a confiança dos portugueses, acabando os apelos
ao ódio e as incitações à violência e ao ressentimento. Trata-se de
construir uma sociedade de tolerância e de paz e não uma sociedade
sujeita a novos mecanismos de opressão e exploração, o que não poderá
ser realizado com a actual equipa dirigente, ainda que parcialmente
renovada, dada a sua falta de credibilidade e manifesta incapacidade
governativa.
É preciso,
finalmente, conduzir o país, com justiça e equidade, e segundo regras
firmes e estáveis, em direcção ao socialismo, à democracia e à paz. |