Arquivo Ernesto Melo Antunes
Desde há
meses a esta parte, como é do conhecimento geral, tem vindo a
desenvolver-se no seio das F. A. um «movimento de oficiais», cujas
origens foram há muito ultrapassadas e assume hoje características,
intenções e finalidades que se entendeu oportuno clarificar e definir. O
documento agora apresentado à atenção de todos os militares tem como
objectivo essencial levá-los a reflectir criticamente sobre os aspectos
fundamentais dos problemas que as F.A. enfrentam - sendo, para tanto,
indispensável uma reflexão global, isto é, não dissociando as F.A. da
Nação e do momento crítico que o País atravessa - e, em seguida,
consolidar a adesão dos que conscientemente chegaram à conclusão de que
uma prática coerente com a nossa análise se torna imperiosa, necessária
e urgente.
Todos sabemos
e sentimos como no consenso generalizado as F.A. têm sido consideradas o
suporte de força de uma estrutura global complexa, político-económica
para cuja orientação - com passagem pela necessária definição do
interesse nacional - o comum dos cidadãos não é chamado a uma
participação directa. De facto, tem-se a consciência de que tal
estrutura não se poderia manter inabalável através dos anos, por maior
cuidado que tivesse havido na preparação das organizações policial e
judicial, se os seus dirigentes não tivessem a garantia da obediência
sem discussão, por parte das F. A., aos objectivos por eles definidos.
Daí o ter-se generalizado o princípio de que compete exclusivamente ao
poder político a definição dos grandes objectivos nacionais e às F. A. a
missão de os executar sem pôr em causa a sua legitimidade. É o mito da «apoliticidade
das F. A.», que transformou os militares, que deveriam ser os guardiões
de uma constituição legítima, em meros executores de uma política
traçada do alto, a qual tem sido protegida não só com alterações
«oportunas» da Constituição, mas também por leis que efectivamente a
restringem.
Se, antes de
1961, as F. A. não eram abertamente atingidas no seu prestígio, ou não o
eram de forma muito violenta, é porque as crises internas do regime não
tinham atingido ainda um grau demasiado agudo. A partir, porém, da queda
da Índia, e sobretudo à medida que as guerras em África se iam
prolongando, as F. A. descobriam, não sem espanto por parte de muitos
militares que pela primeira vez viam claro, o seu divórcio real da
Nação. As F. A são então humilhadas, desprestigiadas, apresentadas ao
País como responsáveis máximos do desastre.
Estava
inventado o «bode expiatório» e criadas as condições para que a Nação
deixasse de confiar nas suas F. A. E daí em diante, o desprestígio das
Instituições Militares não deixa de aumentar. A guerra de Angola, que
entretanto tinha começado, não põe inicialmente aos militares muitos
problemas acerca da sua legitimidade. À medida, porém, que o tempo vai
passando e a situação se vai degradando em todos os seus aspectos
(inclusive no militar, como consequência inevitável da inexistência de
uma estratégia, adequada à situação africana), à medida que outras
frentes da luta armada surgem (Guiné e Moçambique) e o esforço exigido
aos militares começa a ser humanamente incomportável, à medida que se
torna cada vez mais patente a impossibilidade, por parte das F. A., de
atingir os objectivos que lhes são impostos por
um poder que
não aceita sequer a evidência de não possuir os meios da sua política,
aparece cada vez mais claramente em destaque o desenvolvimento de um
processo que tinha tido o seu primeiro episódio visível com a queda da
Índia; incapaz de se auto-reformar sob pena de morrer (politicamente,
entenda-se), o regime aponta intransigentemente para a via unitária como
solução do problema ultramarino; como se torna dia a dia mais evidente a
inexequibilidade de tal via, as F. A. aparecem cada vez mais aos olhos
da Nação como o grande responsável, não só do impasse africano, como da
crise geral que atinge o País, e que não é só crise política, como
também económica, social e moral.
Alarga-se
assim o fosso entre as F. A. e a Nação, aumenta o desprestígio dos
militares (os recentes acontecimentos da Beira, em Moçambique, vêm uma
vez mais confirmar esta realidade por todos sentida), desprestígio esse
que nenhumas medidas conjunturais poderão atenuar.
Não é com
aumentos de vencimentos (e este documento demonstra que, apesar de tudo,
a consciência dos militares não está à venda), nem com regalias sociais
e privilégios de vária ordem, nem sequer com o previsto e anunciado
reequipamento das F. A. para a condução da guerra em moldes tecnicamente
eficazes (o que, além do mais, é extremamente duvidoso que seja
alcançado em tempo útil), não é com medidas apressadas, destinadas a
abafar as vozes discordantes e a atenuar o crescente descontentamento
dentro das F. A., que o poder político conseguirá colmatar a brecha que
se abriu funda e dolorosa, na consciência da maioria dos militares. Nem
serão nunca essas medidas que restituirão o prestígio já demasiado
abalado das F. A., porque o problema não se localiza ao nível da
situação de um grupo sócio-profissional: o prestígio das Instituições
Militares só será alcançado quando as F. A. se identificarem com a
Nação, quando entre as F. A. e o povo houver realmente unidade
fundamental quanto aos objectivos a alcançar.
O problema
maior do povo português e que em larga medida condiciona todos os outros
é, neste momento, o da guerra em três territórios africanos: Angola,
Moçambique e Guiné. A questão é gravíssima e está na base de uma crise
geral do regime, já incontrolável pelo poder. Se está generalizada,
tanto no seio das F. A. como na sociedade civil, a ideia de que não é
possível obter-se uma vitória pelas armas, tudo é feito para que na
opinião pública nacional se enraíze a noção de que o poder político
traçou já a estratégia adequada e que as F. A. não terão mais que
segui-las para que a integridade dos territórios seja garantida.
Consequentemente, se a situação se agrava ainda mais, facilmente se
adivinha sobre quem recairão as responsabilidades, ao mesmo tempo que o
poder terá criado as condições propícias a um inocente lavar de mãos.
Os militares
conscientes sabem, porém, que a solução do problema ultramarino é
política e não militar e entendem ser seu dever denunciar os erros de
que são vítimas e transformarão as F. A., uma vez mais, em bode
expiatório de uma estratégia impossível: uma solução política que
salvaguarde a honra e dignidade nacionais, bem como todos os interesses
legítimos de portugueses instalados em África, mas que tenha em conta a
realidade incontroversa e irreversível da funda aspiração dos povos
africanos a governarem-se por si próprios - o que implica
necessariamente fórmulas políticas, jurídicas e diplomáticas
extremamente flexíveis e dinâmicas. Esta solução tem de ser encarada com
realismo e coragem, pois pensamos que ela corresponde não só aos
verdadeiros interesses do povo português como ao seu autêntico destino
histórico e aos seus mais altos ideais de justiça e de paz. Sabem, no
entanto, os mesmos militares conscientes, que tal solução jamais será
consentida pelo poder, que a si próprio se arroga o direito de exclusivo
em matéria de patriotismo, e se pretende apoiado pela Nação.
Contestamos, pois, o exclusivo e o apoio proclamados.
E porque
assim pensamos, entendemos necessário, como condição primeira de solução
do problema africano, da crise das Forças Armadas e da crise geral do
País, que o poder político detenha o máximo da legitimidade, que as suas
instituições sejam efectivamente representativas das aspirações e
interesses do povo. Por outras palavras: sem democratização do País não
é possível pensar em qualquer solução válida para os gravíssimos
problemas que se abatem sobre nós.
Trata-se,
portanto, antes de mais e acima de tudo, da obtenção a curto prazo de
uma solução para o problema das Instituições no quadro de uma democracia
política.
Neste
contexto, consideramos indispensável e urgente que:
- Sejam
definidos e clarificados os objectivos nacionais, e estes aceites pela
Nação;
- Seja a
Nação claramente elucidada sobre a parcela desses objectivos cuja
prossecução cabe às F. A;
- Seja
promovida e garantida a permanência da compatibilidade dessa parcela com
a capacidade em meios;
- Seja
promovida a reestruturação das F. A., visando a qualificação dos seus
chefes baseada no seu valor militar, o aproveitamento dos meios em
termos de eficiência e eficácia, o respeito pelos direitos individuais,
e a justiça;
- Possam as
F. A. sentir que é efectivamente proporcionada a salvaguarda legítima do
seu prestígio, incluindo a sua não identificação com outras actividades
que não pertencem ao seu múnus específico.
Só nestas
condições poderão as F. A. ter um mínimo de garantia de que são
instrumento da vontade da Nação e que não se encontram ao serviço de
qualquer grupo. Então, já não lhes será permitido duvidar nem da
legitimidade do poder, nem dos objectivos por este definidos e que tudo
farão para cumprir.
Só nestas
condições poderão as F. A. alcançar o prestígio que reivindicam, pois só
então haverá garantias da necessária unidade entre o povo e as
Instituições militares: na verdade, o Exército só será o «povo em armas»
quando entre o Exército e o Povo não existirem quaisquer barreiras,
quando o Exército for realmente a incarnação duma vontade colectiva de
defesa, duma afirmação insofismável, feita pelo próprio Povo, da
segurança e independência Nacional.